Life in Technicolor
A leveza sempre foi algo tão difícil de definir. Acabo percebendo-a de formas indiretas, como se fosse aquele entorpecimento depois do primeiro copo de martini ou o arrepio que segue um beijo cinematográfico.
Nestes dias de leveza, nada acontece de fato. Os dias ocorrem um após o outro, sem grandes paixões, sem grandes martírios. Levo o lixo para fora, faço compras no mercado, levo as roupas para lavar. Às vezes, um porre sem maiores perigos, noites vagas de pouco resultado. Não há sede, não há esperanças.
Lá fora, os dias duram mais. Dá vontade de sair de casa, voltar para academia, talvez praia logo mais. Faço planos, compro livros, arremato aquela pólo salmão que há tanto paquerava na vitrine. Na iminência do ano que finda, aquela energia toda boa do destino em aberto para o reveillon, os novos projetos, os novos (des)caminhos. Pela noite, já vejo iluminações. Por aqui dentro, a percepção de que está chegando, ainda que sem cara ou rosto.
Brand new, disseram-me os astros, os signos, as placas da Paulista, os caminhos do Metrô. Coldplay tem tocado tanto por aqui e me diz:
"now my feet won't touch the ground".
A carta de boas intenções
Descobri que gosto de procurar a beleza nas imperfeições e acho que isso explica meu fraco por sorrisos assimétricos, um nariz pouco acima da média, uma personalidade caótica. Também gosto do fácil, do morno, bem rasinho: por isso, não sou destes de simulacros, caras e bocas. Não acho que um bom amor tenha necessidade de se cozinhar em horas de ligações não retornadas, intenções sublimadas. A linguagem das epidermes sempre é soberana nestes momentos.
Gosto de pagar pelas coisas o preço que elas realmente merecem. Seria idiota se dissesse que não gosto de luxo & glamour, mas a maioria das minhas melhores noites foram regadas em copos americanos e lugares improváveis. Gosto das coisas pelo que elas são, não por aquilo que aparentam. E se tenho que escolher, sempre escolho o caminho mais simples.
Nasci para viver a noite, principalmente madrugadas altas. Gosto do grunge, gosto da barba sempre a mostra e cabelo em completo desalinho. Gosto de All Star no pé, quanto mais detonado, melhor. Gosto de cerveja e me ganha quem me acompanha nestas noites vazias, numa boemia sem razão de ser. Gosto de cigarro e me encanta que tem aquele jeito solitário de fumar, sob a luz errante das lâmpadas amareladas de sódio.
Gosto de quem é parecido comigo, mas de uma maneira completamente diferente. Gosto de cooperação e cumplicidade, coisa essencial para que dois mundos complementares se encontrem sem terremotos ou tsunamis. Gosto de muitas presenças, de dormir todo dia e as escovas bem juntinhas aqui e ali, mas também tenho aprendido a valorizar pequenas ausências: ter saudade até que é bom, melhor que caminhar vazio...
E se você disser que vem, gosto de ficar preparando a alma um tempinho antes. Gosto de taquicardias, gosto do silêncio que precede o toque da campainha até a porta se abrir. Se chover, gosto de andar devagar sob a chuva torrencial, talvez um abraço apertado para dividir o calor. Quando chego estourado de uma madrugada de trabalho, gosto de deitar de mansinho e um beijo terno antes de me afogar em edredons.
Gosto que cozinhe, gosto de levar ao cinema. Gosto de quem me conduza, sem agressividades, para me salvar das minhas bagunças. Gosto de pegar ao acaso um olhar longo, carregado de significados. Gosto muito de domingos. Gosto muito de gostar. E, acima de tudo, gosto da ilusão de que serei feliz para sempre contigo, ainda que esse sempre seja só por uma noite.
Cinco minutos
Japonês, sexta-feira: estava num daqueles dias do meu merecimento. Não havia almoçado, a fome era muita e, o cansaço, proporcional a fome. Também, a previsão de um dia seguinte longo de trabalho sem muitas margens pra descanso. Entre sushis, cervejas e a companhia de um bom amigo, as coisas seguiam sem grandes sobressaltos.
Daí, telefone toca. Tem tocado muito ultimamente: sejam as agruras daquela enfermaria louca, sejam convites pras boas coisas, seja só tanta gente pra me dizer estou com saudades gosto de você seu sumido e rio dizendo: férias estão chegando, deixa só chegar enfim, telefone toca. Sei quem liga e o telefone fica ali, tocando “I’m a cuckoo” do Belle que gosto tanto. Outros tempos, quando você ligava, era “Young Folks” que precedia seu tom de voz firme e macio, todas aquelas vezes em que no caos de uma segunda você me ligava pra dizer bom dia e qualquer coisa em seguida, não necessariamente importante, mas só porque se falar é bom, enfim. Telefone toca e fico ali, meio ridículo, com ele escorregando pelos dedos. Terceira vez no mês, faço as contas.
Atendo. Difícil atender, difícil não atender. E daí tenho todo o roteiro: o tom de voz vacilante e até mesmo um pouco entediado, conduzindo a conversa em monossilábicos esquivos sem aprofundar muito no momento agora, nem no momento antes, só navegando lento nestas águas que certamente são fundas e tempestuosas. Sei simular bem que está tudo bem brilhando, que não me importo se você está em Guarulhos esperando o avião e enquanto esperava lembrou: de mim. Um ano, você diz. Há um ano, você me trazia aqui. Há um ano tivemos um dia daqueles, engarrafados numa marginal estancada. Frenéticos, trocando pistas, contando segundos. Eu te amava. Amávamo-nos, na ligeireza cotidiana, dentro dos nossos descaminhos: mesmo quando perdíamos o vôo, mesmo quando eu errava a entrada na Marginal, mesmo quando a rinite era braba e eu roncava, gostosamente, à noite.
É mesmo, respondi. Não lembraria. Até tinha visto coisas do Círio nas revistas, mas não tinha ligado a data ao fato. A mão escorrega, sei que preciso desligar logo. Sei que não sou um bom fingidor e só agüentaria pouco além de cinco minutos de indiferença simulada. Da primeira vez que me ligou, estava debaixo de um sol maravilhoso, caipirinha na mão, feijoada esperando. Tá na porta do Veloso, você disse. Logo procurei em volta, coração aos pulos. Quando disse que só havia passado de carro e me visto, coração sossegou. Na segunda, nem atendi. Trabalhando, não tinha visto, mas recebi o convite: jantar, boteco, qualquer coisa assim. Declinei, educado. Conheço meus limites.
A última vez que fui para casa faz um ano, aquela vez. Daí desejo boa viagem, digo que também há muito não vou a minha, desde o Carnaval. Até dá vontade de dizer que minha casa agora é aqui, mesmo no desaconchego de aguardar apê com malas por todos os cantos, me seguro. Passaram dois minutos de conversa, ainda agüento sustentar a indiferença. Se falo de mim, a porta se abre. Sei que, do outro lado, você sabe que dissimulo. Você me conhece, sabe que sou doce, tergiverso sobre minúcias, que gosto muito destas coisas povoadas de detalhes. Sou fraco por lembranças e nostalgias. E também sou extremamente sensível pra estes clichês aeroportuários, tipo Casablanca última cena. Nem quero pensar, quero ficar aqui no raso, no controlável.
Faz-se um silêncio povoado, você diz que está cansado, deve ter trabalhado muito, presumo. Se pergunto, sei que irá me contar o que está fazendo, tudo o que começou depois de mim: mudanças, empregos, sociedades, sucesso. Percebo, nas linhas gerais, que você está bem e isto não me incomoda. Também tenho trabalhado demais, amanhã mesmo estou de plantão. Na cabeça vem Caio, de súbito: “tenho trabalhado tanto...” e seguro, prendo o ar, sei que não posso. Deixo o assunto morrer, acabando-se em murmúrios afirmativos.
Até mais, até breve, qualquer coisa assim. Vejo que entramos no quarto minuto, talvez você queira me vencer pelo cansaço. Eu quero desligar, não quero mais. Não quero ser seu amigo, não quero dividir nada além. Podíamos nos encontrar uma vez por ano, cumprimentar com um beijo envergonhado fingindo que nossa história nem aconteceu. Nem faço questão do ritual do pra onde vamos, onde paramos, para onde queremos ir. Até tento me enganar, na iminência do quinto minuto, que não me importo mais. Pressinto que a máscara já vai cair e vou dizer aquelas verdades que você pressente, que havia dito à exaustão no final daquele nosso verão. Antes disso, conseguimos desligar. Boa viagem, reitero, nada mais. Desligo, arfando, jogo o telefone longe. Ele bate na mesa, desarrumando os sashimis tão alinhados e dispostos. Meu amigo me olha, peço desculpas, respiro fundo: onde estávamos mesmo? E continuo.
Ficou na garganta o pedido: não me ligue mais, nunca mais. Não rompa nosso acordo tácito de me deixar aqui, no ponto em que me abandonou. Não me incomoda saber que você partiu e não voltará mais, nem que te construí à imagem e semelhança das minhas melhores ilusões. Não dói o fato consumado. O que incomoda é sua imagem fantasmagórica na soleira de minha porta, reforçando que eu até era bom, mas não o bastante.
Fecho os olhos e torço, não ligue mais. E no segundo seguinte, até penso: podia ligar, ligue só para eu dizer que não quero que você me ligue. Todos os motivos pelos quais não quero mais e talvez, na morosidade do meu discurso vazio, finalmente acreditar em mim mesmo. É incoerente, eu sei. Sou incoerente, eu sei. Dentro de tudo, sei que ainda sou refém de suas chegadas e partidas e agora, depois da terceira vez, sobra aquela angústia passageira do se você ligar de novo, se trouxer um presente, se me convidar prum jantar? Não queria. Não quero. Só é tão difícil resistir.
Sou um fraco pra estas situações avassaladoras, esse que é o fato.
Dos reinícios
Passei este tempo todo tentando escolher as palavras, pra que dissesse o que eu gostaria de te dizer de uma forma que fosse linda, que fosse bela, apesar de triste. Porque, depois de tanta conversa com tanta gente amada, não havia encontrado o corpo correto, o envelope perfeito.
Não queria ter que te escrever de súbito, como estou fazendo agora.
A verdade é que você me dói. Porque sei que você é quem eu sempre quis: doce, leve, divertido, belo, culto. Para se levar ao restaurante num domingo como esse (ensolarado e tépido), para me afagar em sábados como ontem (quando cheguei após 60 horas seguidas de trabalho), para mostrar minha cidade natal, dividir minha casa, minha vida. Se não fosse esta maldita distância, estaríamos juntos desde o segundo que nos conhecemos.
Você me dói porque não posso te ter. Porque eu preciso de você aqui, nas terças-feiras indolentes, para ver como também sei ser ácido quando durmo pouco, teimoso quando contrariado, para aprender a lidar com minha natureza também difícil. Acredito que bons relacionamentos se cristalizam na rotina, para que a linguagem silenciosa se faça, a sintonia se estabeleça. Preciso de carinho, preciso de atenção, preciso de alguém que vele o meu sono enquanto durmo. E, mesmo que você seja meu amor-perfeito, de que adianta se não posso te ter perto de mim? Enterrado até os pés numa rotina absurda, com os finais de semana começando aos domingos às quatro da tarde, essa pandemia toda nas costas...
Não pense que eu não penso em você. Penso sim, às vezes quando tomo banho, exausto, e penso que você poderia estar me esperando ao ver TV. Ou quando desço pra praia de susto e vasculho Maresias inteira atrás de polvo. Ou quando toca Nara, num domingo preguiçoso desses, tomando cerveja sem companhia. Ou quando vi
"Pontes de Madison" e chorei quase ininterruptamente por meia hora, grande parte por tua causa. Naquela cena, principalmente:
Meryl Streep, dentro do carro, na chuva. Se você viu, vai entender. Senão, veja. Vale a pena.
E também não quero fechar a porta para você. O mundo é vasto, os caminhos são estranhos. Pode ser que nada aconteça e fiquemos nós dois, tontos de amor, separados. Pode ser que você tropece por aí e encontre o amor perfeito, seja feliz pra sempre e me guarde como uma possibilidade tão brilhante - e vice-versa. Pode ser que o destino capriche nas suas brincadeiras e que nos coloque, espacialmente e temporalmente, na mesma sintonia. Eu posso morrer amanhã. Podemos viver a mesma história num final de semana destes, porque não? Eu não tenho a resposta. Ninguém tem a resposta.
E depois destes dias iluminados que passamos, acho que nossa questão não é hoje, nem agora. É algo maior. É na nossa capacidade de se encantar, de lembrar que o amor existe e está por aí, que pode acontecer de novo, mesmo depois de sermos tão dangerizados por quem não nos mereciam. De saber que existe você, aí longe, e tem um sentimento tão arrebatador - e eu também. É agridoce, uma alegria melancólica. Mas é preciso que esse sentimento baste. Sem possessividades, sem estudos de viabilidade. Se paro e penso, não quero você. Não quero que você venha, abra meu mundo por dois ou três dias e depois me deixe só, quando embarcar em Congonhas, mais de mês batendo as cabeças e sangrando por desejar todo um mundo iluminado que não posso, agora, ter. Também penso, meio dramático: e se não acontecer novamente? E se ninguém, tão brilhante, como você aparecer, não vale a pena ter esse pouquinho de luz mesmo por tão pouco tempo?
Eu não sei. Sinceramente, eu não sei. É isso que queria te dizer: eu não sei e estou resignado em minha ignorância. E o que existe por aqui não são alguéns físicos, passados ou presentes. Não há ninguém com rosto ou nome, não há a questão da pessoa X. Hoje, digo, há tanto não me sinto tão livre. Há o aprendizado sentimental pregresso, em que tenho vaga idéia do que quero. Como Cazuza canta, meu sonho de consumo: a sorte de um amor tranquilo, com sabor de fruta mordida. E só. E dentro disso, vamos indo, vamos batalhando, perdendo noites de sono e chorando, ridículos, na frente do pc.
Quero que você me abrace quando me vir, de peito aberto. E deixe acontecer. Acho que somos melhores quando não pensamos. E saiba: meu ano não estaria sendo tão bom se eu não tivesse te conhecido. Se você não tivesse me libertado. E, independente do que acontecer, sou eternamente grato.
(11/08/09)
Apenas o fim [10], o último
(1) http://martiniseco.blogspot.com/2009/08/apenas-o-fim.html(2) http://martiniseco.blogspot.com/2009/08/apenas-o-fim-2.html(3) http://martiniseco.blogspot.com/2009/08/apenas-o-fim-3.html(4) http://martiniseco.blogspot.com/2009/08/apenas-o-fim-4.html(5) http://martiniseco.blogspot.com/2009/08/apenas-o-fim-5.html(6) http://martiniseco.blogspot.com/2009/08/apenas-o-fim-6.html(7) http://martiniseco.blogspot.com/2009/08/apenas-o-fim-7.html(8) http://martiniseco.blogspot.com/2009/09/apenas-o-fim-8-o-antepenultimo.html(9) http://martiniseco.blogspot.com/2009/09/apenas-o-fim-9-o-penultimo.htmlPara Maria Anita S. Leite, Tati Rangel e Maria Fernanda Neves, mi hermanitaNão queria desse a impressão que, dessa história toda (quase saga, Maligna disse), agora se fechasse com uma lição. Nunca acreditei naquela moral católica maniqueísta que o sofrimento nos leva a um lugar obrigatoriamente melhor. Amor não é pedagógico, não é Telecurso 2000. Não sou uma pessoa melhor por ter vivido sob a égide de um amor desfeito - perde-se um pouco da inocência, outro bocado de ilusão. Ainda não descobri se, os últimos nove episódios, foram pra unir as duas pontas ou desatar nós. Agora, não importa mais.
Sou eu aqui neste irônico lugar chamado Paraíso, noite fria e cigarro queimando brasa por entre os dedos. Duas coisas são certas: a primeira, que amor não é Síndrome de Estocolmo (devo esta ao Phill,
num post ensolarado). Não é destas de permanecer cativo, enquanto se toma porrada nos rins e toda sorte de chantagens emocionais. A outra é a certeza que tudo aquilo, tudo isso não me serve mais.
Abrindo o relicário, sentia falta de estar bem num domingo morno, naquele horário entre o Pânico e o Domingo Maior. Da segurança em andar de dedos entrelaçados descendo Augusta ou nos filmes indies do cinema, de toda preparação interna que eu fazia entre as surpresas, de como tudo parecia fluir tão redondo dentro da energia boa de se gostar de alguém. E fui percebendo, então, que quase tudo aquilo que me era necessário naqueles dias eram impressões ególatras: eu me sentia, porque eu fazia, porque acontecia comigo. Percebia que o outro era instrumento e todo o prazer residia aqui, entre minhas histerias, carências e incompreensões. E essa tranquilidade também poderia vir do consolo de tanta gente querida por perto, enquanto eu trabalhava de sol-a-sol numa prostituição sem culpa, fazendo yoga, fumando crack, fazendo mergulho, fugindo pra Tailândia, sei lá. E que as saudades não tinham o rosto, o toque, um tom de voz específico - sentia falta mesmo eram das circunstâncias: não necessariamente, percebi, havia de ser com você.
Percebo, sim, que estava doentiamente apaixonado. Vertiginosamente encantado. De querer partilhar o quarto, os lençóis, minha cidade-natal e todo resto incluso no que se caracteriza minha-vida. Cruel é perceber que acaba e concluir, citando Julie Delpy naquele filme que gosto tanto:
"I'll bump into him, we'll meet our new boyfriend and girlfriend, act as if we had never been together, then we'll slowly think of each other less and less until we forget each other completely". De tanto bem-querer, só sobrar esse incômodo, esta gastura, esses simulacros.
E agora? Só resta seguir, tão distraído quanto minha boa Clarice prega. Vai acontecer de novo, está acontecendo de novo, eu sei. Pode ser hoje, pode ser amanhã, pode demorar outros seis meses. Pode até não ser pleno nem cinematográfico, pode ser rasinho, nem precisa necessariamente seguir sob o ritmo lento das novas bossas, solos de jazz. Pode até me deixar, no final, sangrando na sarjeta ou zonzo de tanto amor não dado. Posso até dar sorte do destino errar a mão e jogar no meu colo um amor destes, intensos e imensos. Até posso morrer atravessando a rua agora, bêbado, que até considero um final razoável. Restam, tantas, as possibilidades. Tantas outras, além de você.
Ficamos assim: tudo certo, nada resolvido. E se te encontrar, nem faço questão de saber a quantas seu universo gira ou qualquer outro protocolo de boas intenções. Só não resisto, quando piso na Bela Cintra, de contar os andares para ver se sua luz está acesa. Sei que você permanecerá sempre em mim, mesmo que eu conscientemente não queira ou não precise. Como uma lanterna na popa, que ilumina somente as ondas que deixamos para trás.
Já é dia, apago o quinto cigarro e prometo tentar dormir. Fecho a janela, as cortinas, tomo dois comprimidos de qualquer coisa e vou deitar, no desejo de um sono pesado e sem sonhos. Termino por aqui essa crônica sobre uma paixão ordinária. E se perguntarem qualquer coisa, digo: isto tudo que escrevi, em dez pedaços, foi - aos trancos e barrancos - apenas o fim. E sou imensamente grato a todos que, desapegadamente, seguraram firme a minha mão enquanto os caminhos eram tão difíceis.
Apenas o fim [9], o penúltimo
(1)
http://martiniseco.blogspot.com/2009/08/apenas-o-fim.html(2)
http://martiniseco.blogspot.com/2009/08/apenas-o-fim-2.html(3)
http://martiniseco.blogspot.com/2009/08/apenas-o-fim-3.html(4)
http://martiniseco.blogspot.com/2009/08/apenas-o-fim-4.html(5)
http://martiniseco.blogspot.com/2009/08/apenas-o-fim-5.html(6)
http://martiniseco.blogspot.com/2009/08/apenas-o-fim-6.html(7)
http://martiniseco.blogspot.com/2009/08/apenas-o-fim-7.html(8)
http://martiniseco.blogspot.com/2009/09/apenas-o-fim-8-o-antepenultimo.htmlCruzei as marginais desertas, o porta-malas cheio de boas intenções. Era uma sexta tépida e ensolarada, segundo dia de um feriado prolongado: todos que deveriam descer já tinham descido. Então, tive a benção dos caminhos abertos e vastos, puro reflexo do que pressentia aqui dentro, por todo lugar.
Desci a Serra sem muitos sobressaltos. Muitas curvas, muito verde, boa música guiando os caminhos. Lá do alto, vê-se o Mar - sorrio, quase enfiando o carro ladeira abaixo. Acontece, penso eu. Sigo caminho cruzando Caraguá, perdendo-me em São Sebastião. Lá ao longe, a praia ao alcance dos dedos e aquele gosto salgado no ar. É preciso seguir, é preciso chegar. Encontro o rumo, vou em frente.
Maresias não tardou a chegar. Cidade deserta para os padrões: ao contrário de Sampa, ao nível do mar o Sol se escondia sob pesadas nuvens, vento gelado soprando. Estaciono o carro, abro a primeira Stella Artois da série de muitas e bebo devagar. Perco vários minutos observando o vai-e-vem das pessoas, do ritmo vagaroso que a vida tem à beira-mar.
Logo choveu e assim choveria pelos próximos três dias. Sem problemas: saquei a biografia de Caio F, comprada num encontro surpreendente e até providêncial. No mercado, providenciei litros de cerveja para acompanhar a chuva que tamborilava lá fora. Quando cansado, havia Friends numa diversão chiclete e sem culpa. À noitinha, Vinão chegava e seguíamos no burburinho da cidade trocando histórias engraçadas e sem perigo, entre temakis de polvo, gente bonita, espontaneidades. Fazia bem essa alegria simples.
Pelo segundo dia, sob efeito de um texto tão-lindo que Caio havia escrito, resolvi que era
A hora. Seis meses haviam-se passado de luto pesado, coração preso a tanto desamor. O mar, meu espectador silencioso naqueles dias soturnos do Leblon, seria novamente meu cúmplice amigo, irmão. Havia cansado de tanto mofo, já era hora de se abrirem as janelas. Vesti qualquer roupa leve e fui.
Chovia muito, choviam cântaros. A praia parecia o clip de Yellow, do Colplay: "Look at the stars, look how they shine for you...". Havia só eu na areia, eu e meus pensamentos, eu e minhas referências. Na água, até via alguns surfistas vagos, pequenos pontos pretos, perdidos na malemolência do mar revolto. Batia aquele vento gostoso e deu vontade de ser pipa novamente, Kite perdida no céu.
Quando ensopado, lembrei de Holden Caulfield: ali no finalzinho, naquela cena maravilhosa do carrossel. Naquela em que chove e ele fica ali, sozinho, na chuva, fitando a irmã que rodava sem parar. Ao fundo, tocava "Smoke gets in your eyes". Era ali que ele percebia a excessividade do movimento, na necessidade de seguir mais devagar.
"When your heart's on fire, you must realize: smoke gets in your eyes", essa era a verdade. Com o coração em chamas, mal conseguia enxergar além do meu nariz. Perdia-me na fumaça dessa fogueira de paixões e sentimentos. Tão bela a chama, tão lindo ver o fogo alto, o brilho mortiço alaranjado que aquece e acalenta. Só que esqueci que existe além. Que não sou daquelas moscas, que se matam buscando a única luz que aparece a noite.
Eu não poderia ser daqueles que se hipnotizam com as brasas. E era o que estava acontecendo. Tão centrado numa espiral de piedade e auto-comiseração, tão inerte com medo do tombo: só conseguia permanecer ali, agitando as brasas procurando restos, fagulhas. Vinha a fumaça, turvando os sentimentos: sem que nada de calor viesse dali. Por isso era preciso a água, era preciso a chuva, era preciso o mar. Era preciso que lavasse, levasse embora o que restava para longe. Eu caminhava a passos lentos, sob a chuva, buscando este tipo de redenção.
Era preciso a tenacidade de Vicente, o corvo de Miguel Torga. Cansado dos desígnios de Deus, Vicente abre as asas e foge da Arca. Põe-se, então, no último pedaço de terra seca que sobrara durante o dilúvio. Deus abre as cataratas do céu, em represália. Quer fazer Vicente retornar a Arca e sufocar o movimento de subversão. A água lambe as garras, deixa só a cabeça do corvo de fora. Vicente permanece imóvel, desafiando a onipotência. Mas "nada podia contra àquela vontade inabalável de ser livre" e Deus, vencido, fecha as portas do céu.
Foi assim que voltei pra casa, encharcado e liberto: eu, Holden, Vicente, de mãos bem dadas. A partir daquele momento, tudo deveria ser diferente. Passado era passado, pecado se perder por tanto tempo em tanta lamúria. Com tanta lágrima, havia feito meu mar pra navegar. E agora, apesar da chuva, finalmente decidia abrir as velas e seguir, sem rumo, no aguardo do acaso propício...
Apenas o fim [8], o antepenúltimo
(1)
http://martiniseco.blogspot.com/2009/08/apenas-o-fim.html(2)
http://martiniseco.blogspot.com/2009/08/apenas-o-fim-2.html(3)
http://martiniseco.blogspot.com/2009/08/apenas-o-fim-3.html(4)
http://martiniseco.blogspot.com/2009/08/apenas-o-fim-4.html(5)
http://martiniseco.blogspot.com/2009/08/apenas-o-fim-5.html(6)
http://martiniseco.blogspot.com/2009/08/apenas-o-fim-6.html(7)
http://martiniseco.blogspot.com/2009/08/apenas-o-fim-7.htmlAquele só foi o primeiro. Morreu um, morreu outro: quando vi, ao final daquele longo mês, haviam morrido cinco no total. Há mortes que são anunciadas, o que não foi o caso: todas elas foram, de certa forma, inesperadas. Nada parecia dar certo: os nossos raciocínios nos levavam a becos sem saída. Fazíamos tudo o que podíamos e dava errado. Os pacientes pioravam inexoravelmente, escorrendo por entre nossos dedos inábeis.
Foi um mês frenético, de insônias e culpas. De inseguranças e inabilidades. Mas, acima de tudo, de um crescimento brutal. Parte dele profissional, de aprender a respeitar o difícil tempo das coisas, da nossa fragilidade apesar de todo o conhecimento que detemos. Também pessoal: do coleguismo que se constrói nas situações-limite, na capacidade de superação.
Estar com os cotovelos e joelhos afundados no caos me fizeram repensar nelas, nas Prioridades. Sim, aquilo ali era a Vida, aquilo ali que era a realidade. Senti-me culpado em gastar tantos neurônios nas minhas histerias pequeno-burguesas: ah mas se eu tivesse sido mais compreensivo se tivesse trocado as roupas os sapatos talvez mudado sotaque ou sido aquela pessoa completamente diferente de mim que ele queria que eu tivesse sido e. Quanta bobagem, passar horas a fio reforçando meus traumas, minhas carências crônicas, enquanto havia tanta vida por aí.
E se me perder nas elocubrações fúteis era algo inevitável, então porque não ocupar a mente para que isso não acontecesse? Decidi me anestesiar, decidi ocupar tudo para que não sobrasse margem para mais nada, nada além. Havia descoberto a resposta, naquele prazer
working-class do suor e do sangue: enquanto trabalhasse loucamente, não pensaria no Leblon, na rua Bela Cintra, na forma que você sorria quando estava feliz. Para mim, era fácil: arrumei mil-plantões, duzentas responsabilidades. Decidi trocar de carro, comprar apartamento, viajar pra Tailândia, ou qualquer meta adulta. Decidi fechar o vidro, engatar a quinta e seguir correndo até quando decidir parar.
Foi assim, um mês, dois meses. E engraçado que, de tão ocupado, não fui percebendo nas coisas pequenas que aconteciam ali, à margem. Foram encadeando novas amizades, para me mostrar novos caminhos, novos mistérios. Outros amores foram surgindo, desencadeando as velhas espirais de desejos e bem-quereres. Encarei novas responsabilidades, estabelecendo novas metas, novos desafios, outros planos. Quando vi, alguns meses depois, a vida estava seguindo lépida e leve, alguns passos aquém do que eu gostaria que estivesse, mas assim:
brand new.
E não vou dizer que, a la Dorothy, bati os sapatos vermelhos e tudo se transformou. Vezenquando, nestas noites em que chegava bêbado e irremediavelmente sozinho, havia a vontade de ligações e cartas e mails. Às vezes até me desapegava e escrevia um post por aqui, uma ligação para amigos pra dizer: ah, é insuportável essa sina de viver. Não foram poucas, também não foram muitas. Num assunto, numa lembrança, em qualquer esquina: aparecia, lembrança baça, mas que ia desincomodando aos poucos.
Até quando, quase quatro meses depois, trabalhar tanto me incomodava. Haviam convites agora, telefone tocava todo dia. Talvez cinema ou buteco, talvez museu ou restaurante, talvez fazer nada na casa de novos amigos, talvez ligar praquela nova paixão lancinante. Pois é, sem perceber, tudo havia se encaixado. Havia vida após, vida além. Agora ela estava ali novamente, palpitando, ao meu alcance.
Num finde prolongado, resolvi aceitar um convite: praia desconhecida, amigo novo. Estava precisando rever o mar. Estava precisando reencontrar sentimentos que só a maresia consegue evocar. Nem planejei muito: saquei da manga umas mentiras brancas e logo ganhei quatro dias de folga. Coloquei todas as malas e desejos no meu velho carro, acordei no improvável horário das seis da madrugada e segui. Marginais desertas, dia tépido e brilhante.
E fui descer a serra...