Quarta-feira, Julho 02, 2008

Mid-Term

Agora que viramos a folhinha entrando neste gélido mês de julho, celebrando outro ano que chega à metade; agora que cada dia é apenas mais um dia a menos até o Natal - é hora de passar a régua, tentar apertar o passo, estabelecer novas metas.

Depois de seis meses nesta vida adulta, paro para fazer o ajuste fino dos atos e intenções. Porque, muito embora todos estes dias foram de uma felicidade leve, ora taquicárdica, ora melancólica, talvez seja hora de firmar bem os pés no chão e mirar para frente.

Faço contas para perceber que o dinheiro só dá para chegar ao final do mês. Faço planos para lamentar a falta de tempo livre, dos longos finais de semanas preguiçosos essenciais para pequenas viagens e porres. Revejo memórias antigas para sofrer novamente dessas impossibilidades, essas distâncias, essas coincidências que o destino insiste em nos colocar. Rabisco cartas vagas de desculpas, meço palavras em telefonemas e até decido viver com mais vagar e parcimônia.

Mando trazer de longe velhos livros, velhos contos. Talvez começar a escrever aquele livro que sempre me persegue, porque não? E sempre lembrar, nunca esquecer: independente por onde ou pra onde, não importando quando nem se: andar distraído, pois assim tão distraído vejo as coisas acontecerem, tão sem pressa vendo tudo se acertar sem que eu necessariamente precise fazer algo.

E que esse pequeno momento de peso se converta em leveza até esse ano iluminado terminar...

Terça-feira, Junho 24, 2008

Shortcuts aleatórios 2

Seis. Sou um ócio, uma distração - li nas suas entrelinhas, mas se fazer de sonso não exige muito preparo intelectual. Por isso, embarquei sem dó até o profundo da garganta caótica do caos paulistano só para te buscar no Paraíso (o bairro, não a instituição). Lá se foi uma hora a menos de vida entre buzinas e semáforos e pedestres e muito stress. Mas lá cheguei, te levei para casa, conversamos em silêncios longos e palavras medidas. Para perceber que depois de mais de três meses de vagas promessas e protocolos de boas intenções: tanto eu quanto você estávamos ali só para entender um passado comum, juntar as peças perdidas do quebra-cabeça. Necrópsia de sentimentos enterrados, tão somente - que não deram margem a nada além destes beijos mornos, mal-encaixados.

Sete. Sempre que desligo o telefone, ainda o seguro por alguns segundos. Você é doce, irresistivelmente doce. Percebo no seu olhar, nos seus gestos. Na preocupação distraída em deixar a casa em ordem, de me inserir de forma sutil em sua vida. E por mais que eu sorria meio besta enquanto sorrio ao escutar teu sotaque paulistano clássico: revejo Camille Claudel e essas ausências que não consigo explicar.

Oito. Ainda meio trôpego dos drinks que insistia em me dar (seria whisky com guaraná, tão Elis Regina? Não sei...), ainda meio zonzo de te reencontrar nestas conversas longas, tão cheias de curvas e, ao mesmo tempo, tão convergentes... Não, não havia calculado aquilo e agora estava com medo pois sabia que um passo além seriam abrir as comportas ou talvez mergulhar fundo num mar meio tropical cheio de peixes sem saber quão fundo é e de tanto pensar nestas coisas tolas enquanto Você passava do meu lado bati a cabeça na porta e daí você me abraçou longo longo longo até me pedir com mão escorregando na nuca: desculpa e eu não lembro acho que só acenei com a cabeça pra depois te apertar bem forte forte forte...

Oito e meio. "Se existe algum tipo de mágica nesse mundo, deve estar na tentativa de entender alguém compartilhando alguma coisa. É quase impossível conseguir, mas quem se importa? A resposta está na tentativa"
(Antes do Amanhecer)

Terça-feira, Junho 17, 2008

10 canções: #1 - Na Sua Estante - Pitty

Pois foi quando fuçando no baú dos mp3s antigos, reencontrei The Cure. E de todas as músicas tão perigosas, aquele verso tão cruel que me perseguiu por tanto tempo: "Three long years... and your favorite man...Is that anyway to say hello?*".

E na contabilidade dos calendário e não é que fiz a conta: três anos. Na verdade, três anos e mais um pouco, pois a data exata já havia passado faz algum tempo. Percebi pela associação inconsciente que fiz da sua presença e estes dias frios que principiam, doendo dedos e de respiração difícil.

Essa música, como tantas outras, eram tuas. Pequenas torturas, pequenos lembretes, pequenas pontuações sobre impossibilidades e covardias. E por abrir o armário de recordações, também vieram tantas outras lembranças dos caminhos em que percorremos paralelamente e das ilusões que um dia tive, para simplesmente desaguár no nada, no lugar nenhum. Lembrei dos longos blues de Ana**, nos quais coloquei seu nome e sofri tal qual o autor, procurando em tanta gente aquilo que gostaria de ter encontrado nos teus braços.

E tudo isso para perceber que hoje, depois de tanto tempo, tanto calo e tantas passagens: aquilo tudo que julgava sua herança agora é unicamente meu. Que posso vaguear por terrenos perigosos, as filas do pão***, por Paulinho Moska e Lulu Santos, por Holden Caulfield e García Márquez sem aquela gastura, aquele nó no peito.

Também aprendi a me valorizar, mesmo que seja meio clichê, auto-ajuda - mas é verdade. Também aprendi neste meio tempo que tenho meu brilho e não preciso ficar barganhando migalhas de amor: mereço mesmo é o bolo inteiro, confeitado, velas por cima, pique-pique-pique-hora-hora-hora-rá-tim-bum. E que lá no fundo (e por mais que doa a idéia de ter sido sempre preterido), se você nunca voltou, não foi por falta de deixar as minhas portas abertas e o caminho bem iluminado.

E quando escutava Pitty repetidamente, percebi que esta música, de certa forma, que agora é sua. Não de agora - mas talvez daquele momento-quando, no segundo após o início do processo em perceber que, por mais que você fosse imensamente especial na época: já foi.

"E não adianta nem me procurar
Em outros timbres, outros risos
Eu estava aqui o tempo todo
Só você não viu"

* Cut Here - The Cure
** Sem Ana Blues - Caio Fernando Abreu
*** Último Romance - Los Hermanos

Quinta-feira, Junho 12, 2008

Os falsos sentimentos

Acordo todos os dias, fito o espelho e repito sete vezes num fôlego só: que seja doce. E abro as janelas pra ver o Sol entrar, cantarolo qualquer música feliz, cumprimento os vizinhos no elevador e até fico procurando essas pequenas coincidências em cada passo que dou até o dia realmente começar.

Banco a Pollyanna surtada diariamente para não entregar meu coração a uma espiral de ódio e rancor.

Porque, quando vejo, já estou destilando respostas duras e petulantes. Como minha mãe bem disse, dentro da minha irritante onipotência que me é natural. Quando vejo, estou rifando todo amor que sinto por coisas tão vagas quanto liberdade, auto-suficiência, orgulho.

Não que eu seja puro-e-casto - passo longe de Madre Teresa de Calcutá e sempre achei que o caminho da santidade é tão incerto quanto os caminhos da perdição. Também me reservo ao direito da vingança indolor, das maldades controladas. Só não quero que o que é uma resposta saudável a tanto desamor tome proporções incontroláveis. E que tanta gente que me é cara seja consumida nesta fogueira de vaidades.

Portanto, repito sempre: que seja doce. Abro as cortinas num sobressalto e fito a janela: pra achar até os dias meio foggy tóxicos de Sampa irresistivelmente belos.

Quinta-feira, Junho 05, 2008

Freedom

Não basta pagar as próprias contas, a própria cerveja, as próprias tralhas. Não basta ter um (ou dois, dependendo) empregos e acordar diariamente com tesão no que se faz. Não basta ter o carro, o DVD, o laptop e todas as quinquilharias fúteis que deixam os dias mais alegres. Não basta ter as quintas-feiras sempre reservadas pra aquele programinha, com aquela musiquinha, na esperança semanal que alguma coisa aconteça. Não bastam os planos vagos, tipo Londres em 3 anos, tipo Argentina já já. Não basta ter a vida rolando, brand new e sem muitas dificuldades, numa mornidão quase taquicárdica.

A minha liberdade tem outra cara. Aconteceu há uma semana, de súbito, antes das 7 da manhã. Meio trágica, meio irresponsável - meio perdas e danos, meio bomba de seis meses atrás. Mas assim que os dias se seguiram, nada pesou. Nada ficou. Só essa sensação de: ainda bem. Agora vai.

Estou livre.

Segunda-feira, Maio 26, 2008

Shortcuts aleatórios

Um. Descia a Peixoto Gomide em passos ébrios, lentos. Cruzava vagaroso os caminhos até movimentados ao virar da esquina naquela noite particulamente gelada. Nem sei o que procurava - acho que só um pouco de distração barata, um entorpecimento dos sentidos, nada além. Mas te encontrei ali, depois de dois passos, e me desmanchei num sorriso inesperado. Quando tempo sem se ver, duas semanas? E foi aí que nos abraçamos, daqueles abraços um pouco ébrios, lentos, longos. Quanto tempo ali? Nem sei. Só sei que com vagar percebi os ciclos de sua respiração quente na minha clavícula. Foi aí que te apertei forte, com você repetindo o movimento em seguida. Até minhas mãos escorregarem até sua nuca e eu brincar inadivertidamente com seus cachos e você escorregar a sua na minha nuca descoberta do cabelo cortado um pouco demais. E chegamos mais perto, mais perto, até que fechei os olhos sem saber o que estava fazendo. Você me disse: está tão perfumado. E parecia cena de Caio Fernando: aquele abraço longo, recheado de reticências - sem que nada ali, realmente, fosse acontecer.

Dois. Eu disse que esse afeto tremendo é ponto de partida. Você disse que só este afeto não basta. Eu cantarolo Cazuza como prece: "quero a sorte de um amor tranquilo". Você diz que pra ser amor, só se for os vertiginosos. Eu quero pontuar os silêncios. Você acha que silêncios falam por si só. Eu digo que sempre tive medo de ultrapassar aquele ponto. Você diz que amores são puramente instintivos. Eu quero estabilidade, você confessa sua adolescência tardia. E neste brincar de "A Seta e o Alvo", vejo tanta coisa fofa se esfarelar, asfixiar: sem que nada pudesse necessariamente ser feito além daquele protocolo inútil das boas intenções.

Três. Você me diz que as pessoas estão tão desinteressantes, os dias tão banais. E eu compreendo. Você me pergunta, aliás, comunica: vou ao Rio de Janeiro - e eu concordo: vai, vai mesmo. Mesmo que seja essas paixões lancinantes e pungentes, pra deixar coração sangrando meses depois da partida. Mesmo que seja daquelas coisas que dangerizam a alma, subvertem o estômago e nos deixam tão nus quando elas passam. É presente de nós para nós: uma possibilidade de vida, endorfinas ilimitadas e uma historinha cor-de-rosa, mesmo que seja sob o signo da melancolia mais doce.

Quatro. Você me liga enquanto estou no Tietê: quero te ver. Sorrio meio besta, meio sem graça: eu também. Vou até Paraíso, contando as estações. Deixo minha mala, tomo meu banho de gato, atravesso uma Paulista caótica à pé até a Augusta e sentir, sabe aquilo? Borboletas. Aperto sua mão bem forte, atravessamos os Jardins conversando banalidades. Queria isso agora, queria isso sempre - murmuro baixinho, sem que você perceba.

Cinco. É de manhã bem cedo, acordo dois minutos antes do despertador. Vejo você dormir: pernas com pernas, cabeça posta no meu ombro. Te acordo num sussuro: são cinco e meia. Você acorda, cara tão amassada da(s) noite(s) mal-dormida(s). Tem Congonhas às sete da manhã, dead-line sem muito o que fazer. Enquanto vejo você aprontar, lembro de nossa conversa na Oscar Freire: não gosto destas histórias, de achar alguém que gosto pra saber que mora longe, longe. E você responder: mas nunca se sabe o dia de amanhã. E se fosse um filme, neste momento tocaria Chico Buarque: "Não se afobe, não, que nada é pra já... O amor não tem pressa". E no momento em que te coloquei naquele táxi, pra bem longe bem longe de mim, tive a certeza: um caquinho do meu coração agora também repousa às margens da Baía de Guanabara, bem debaixo dos braços do Cristo Redentor...

Segunda-feira, Maio 12, 2008

Tolices

Isto aqui será hoje apenas sobre coisas tolas, desimportantes aos olhos desses aí que vivem caçando objetivos, metas precisas. Porque já aprendi que tenho esse jeito meio tolo, meio irracional. Já aprendi, de cor e salteado, que este meu coração é afeito a este tipo de tolices, leviandades.

Não que você seja leviano - pelo contrário, não me entenda mal. Mas vem cá: não é algo tão sem propósito este "estar gostando" sem mesmo conhecer direito o rosto, o peso dos dedos durante uma conversa esquiva, o franzir de sobrancelhas durante qualquer dúvida deliciosa? Este gostar que se ergue apenas em alguns pré-julgamentos, algumas referências cruzadas, algumas vivências em comum, em poucos sambas que, sem saber, cantamos juntos no mesmo momento.

Já me disseram e eu concordei: isso é ilusão, pura ilusão. Tão sei, porque te desenho à imagem e semelhança de tudo aquilo que já desejei e nunca aconteceu. Tão sei, porque sem querer já marquei encontros contigo à meia luz em cantinas italianas, dancei "Moon River" na bagunça do meu apartamento, já te levei dentro dos meus porres num buteco barato qualquer da Augusta, já sofri pela espera dos minutos que te prenderiam além do tempo nos congestionamentos desta cidade cinzenta, já vi filmes contigo de mãos tão dadas com medo de te perder por algum dia.

Mas é esse tipo de ilusão que me salva desta rotina esmagadora que não redime nem mata, dessa melancolia da espera por viver algo que seja realmente marcante, dessas pessoas tão vazias que nada acrescentam ao final de uma noite. Uma ilusão que é meio esperança de que talvez Seja (notou a maiúscula?), por todas essas linhas tortas que o destino às vezes teima em escrever. E mesmo se for só ilusão doce e no final você me deixar no meio da rua sem nada além, tão sedento de tanto amor não dado - ainda sim terá sido lindo pela promessa do que poderia ter sido e não foi.

E lá no fundo, por mais que tudo o que tenha dito seja baseado apenas nas minhas vagas e doces ilusões, tenho uma (ai!) intuição de que você vale a pena. Você é diferente, coisa rara neste mar de banalidades e cotidianiedades que estamos chafurdados. Quando penso em você, já levanto um inquérito longo sobre portos que já passaste, dos livros que já leste, dos pontos cegos que talvez eu pudesse iluminar. De tudo o que já tenha te arrebatadoramente encantado. E, sei lá, fazer planos miúdos como o jantar da semana que vem, um braço de lírios brancos na mesa quando você acordar e eu não estivesse, um bate-e-volta pro Guarujá, ou até mesmo um mês numa praia da Croácia que tanto tenho vontade de conhecer.

São basicamente estas, minhas sinceras tolices (ou seriam sinceridades tolas, fico na dúvida!). São ilusórias, ilógicas e irracionais. Mas tenho aprendido que a vida não é dessa precisão matemática, sem cálculos nem formas. E estas tolices, embora com uma possibilidade grande de nunca virem a acontecer, acabam por me acalentar nestas noites frias. Afinal, já me disse uma grandíssima amiga: o amor é uma grande malha de insistência, paciência e espera. E, de confiança tão cega que tenho nela, até acredito. Porque, tenho que confessar: ainda não aprendi a ser de outro jeito.

E insisto. E sou paciente.

E espero...