Quinta-feira, Julho 02, 2009

Gripe suína for dummies

Vem cá: se essa gripe não mata ninguém, porque existe tanto vuco-vuco por trás?

Bem, ESSA gripe AINDA não mata. Existem tipos de gripe com mortalidade em torno de 30 - 50%. Toda vigilância serve para monitorar se / quando algo vai sair dos conformes. Porque, com tanto vírus rodando por aí, se ele sofrer uma mutação caprichosa, daí podemos ter uma gripe com mortalidade considerável. Nunca é demais dizer: a epidemia de gripe espanhola foi dividida em três fases. A primeira não matou ninguém, a segunda levou 20% da população.

Então, eu vou morrer?

Não. Vigilância serve mesmo para isso. Por enquanto, a taxa de mortalidade é baixíssima, menor que 0,1%. O problema é só para extremos de idade e portadores de comorbidades prévias, que sempre foram a população de risco para doenças virais respiratórias.

Tudo bem. Se eu tiver sintomas, corro para o hospital?

Depende. Se você não tiver febre, nem adianta levantar a bunda gripada da cadeira. Um dos critérios maiores para você suspeitar de H1N1 é febre. Também é preciso apresentar tosse e/ou dor de garganta.

Ok. Estou me sentindo assim. Corro para o hospital?

Depende. A última coisa necessária para a suspeita de H1N1 é algum vínculo epidemiológico, isto é: que você tenha contato com algum caso suspeito / confirmado ou vindo de regiões aonde a gripe está presente (no momento, mais de 120 paíeses incluindo Antilhas Holandesas, Fiji, etc).

Meu vizinho está doente, gripado. Vale?

Se ele não tiver histórico epidemiológico, não. Permaneça com a bunda gripada na cadeira.

Mas eu ando de metrô, vou ao cinema, etc. Se essa gripe está em todo lugar, como o Jornal Nacional fala, com certeza eu vou pegar!

O Ministério da Saúde ainda não considera que esteja tendo transmissão sustentada, ou seja, transmissão sem proximidade com caso suspeito ou confirmado ou do exterior.

Entrei em contato com algum casos suspeito / confirmado ou acabei de chegar do exterior. Não apresento sintoma nenhum. Preciso ir ao hospital?

Não. As orientações só valem para quem tem sintomas. Se você não está gripado, pra que vai no hospital?

Ah, mas eu queria ir só para desencargo de consciência...

Acredite, numa lista de coisas que médicos odeiam atender, pessoas com sintomas flu-like (= gripais) está com certeza no top ten junto com bolas na garganta que sobem e descem, formigamento nas mãos, etc. Ninguém passa seis anos na faculdade para ficar perguntando: teve febre? Tá tossindo? Garganta tá doendo? Médicos, normalmente, gostam da ilusão de estarem realmente salvando vidas. Então, se você não apresenta sintomas, não sobrecarregue os hospitais que já estão sobrecarregados para você tirar uma dúvida, pedir exames, etc. Compreendido?

Qual hospital que eu vou?

Um decente, de preferência. Esqueça aquele hospital de convênio vagabundo que você tem, com um médico, provavelmente, sub-empregado, recém-formado e sem residência. Veja a lista dos hospitais referenciados e vá em algum deles. Pelo menos eles tem discernimento e informação para conduzir seu caso suspeito de uma forma correta e sem muitos atropelos.

Mas eu sou chique, vou lá no Einstein, no Sírio...

Vai mesmo, dou todo o apoio. Só que aposto que lá está tão pandemônio quanto os públicos. Pelo menos, lá tem máquina de café e os funcionários fingem que se importam com suas reclamações de "tá demorando" e etc.

E o tratamento?

É com Tamiflu, um antiviral. Só está indicado para pacientes que possuem fatores de risco para evoluirem para um quadro mais grave.

Eu quero tomar. E aí?

Não pode, se não tiver indicação.

Mas eu sou chique, posso comprar. E aí?

Se fudeu. Devido a babacas como você, que tomam desnecessariamente o remédio e fazem pressão seletiva para o vírus ficar resistente a uma das poucas medicações disponíveis, o governo controla todo o estoque do Tamiflu. Ou seja, só toma quem o médico quiser.

Tá bom, vou conseguir no mercado negro...

Tudo bem. Mas tome antes de 48 horas do início dos sintomas, senão não serve para nada.

E o exame? Tô querendo fazer só pra saber se peguei isso...

Bem, também só faz o exame quem é considerado caso suspeito. O exame não está sendo feito de rotina. E antes que você pergunte, nem no Fleury você consegue isso "particular". Só poucos laboratórios credenciados de referência estão fazendo os exames.

Poucos laboratórios? Mas isso tá dando certo?

Não exatamente... Mas enfim.

Tudo bem. Entrei em contato com alguém suspeito que foi posto em quarentena. São quatro horas da manhã. Corro para o hospital?

Para isso e para qualquer coisa que você, por vez, sinta: ir a noite no hospital é só em caso de urgência. Médicos, não raro, já estão deveras mal-humorados após as onze horas da noite. Nem acham muito ruim de atender coisas urgentes, tipo infarto, derrame, parada cardíaca. Agora, nem tente se consultar por conta de uma gripe no horário pouco cristão após a meia-noite. Médicos tem técnicas sádicas de fazer o paciente se arrepender por tê-los aborrecido por bobagens fora de hora. Se você estiver espumando pela boca, os lábios estiverem azuis, daí a coisa é completamente diferente. Até mesmo porque, como falei acima, esta gripe raramente pode causar casos graves.

E...

Última coisa, sobre contato. Considera-se contato aquele indivíduo que você conversou a até um metro de distância. O vírus se propaga por aerossol na saliva e não costuma ir muito além desta imensa distância. Por isso, aquele seu coleguinha do andar de cima que está em isolamento e você nunca viu na vida, pouco provavelmente transmitirá a gripe para você.

Mas estou com medo, quero andar de máscara. Posso?

Lógico que pode. Mas é desnecessário, sem contar que é ridículo. A máscara cirúrgica funciona bem por intervalos curtos de tempo e para evitar contatos rápidos, mas ela não barra com tanta eficácia se utilizada por longos períodos.

Ainda estou com medo... Posso te fazer uma pergunta reservadamente, tipo na caixa de comentários aqui embaixo? Ou no Orkut? Ou no Twitter?

Não. Já me basta estar dentro do olho do furacão desta bendita pandemia somente pelo duvidoso prazer acadêmico, sem nenhum adicional financeiro. Se está realmente com dúvida, entre no site do Ministério da Saúde, do CVE, joga no Google, se vira nos trinta. Só não venha me encher o saco, pois não aguento mais falar sobre febres e corizas depois de doze longas horas ininterruptas fazendo isto no hospital.

Ah, mas larga de ser grosso. Você é médico, seu dever é proteger a população e etc...

[conversa com a minha mão]

Quinta-feira, Junho 25, 2009

Contardo Calligaris hoje, na folha

"Duas possibilidades: o amor surge quando está na hora de a gente se transformar ou, então, é por amor que a gente se transforma. Não é necessário tomar partido: talvez as duas sejam verdadeiras"

"Brincadeira à parte, os filmes de Linklater talvez sejam mais tocantes -entre outras coisas, porque eles conferem uma beleza melancólica a uma desistência que é muito parecida com as renúncias às quais nos resignamos a cada dia"

Quem identificou, levanta a mão e bate aqui: __________

(PS - em breve, bem breve, mudança editorial no blog. Aguardem)

Sexta-feira, Junho 19, 2009

Pois é...

(...)

Vou aqui, acender o terceiro e último cigarro. Apago a luz e ficarei observando a brasa, queimando lenta. Sentindo esse entorpecimento bom, que basta por hoje. Ainda não sei o que construirei destas suas ausências, destes espaços que, sem querer, você se coloca...

Canto junto: avisa que é de se entregar o viver. Não me consola, mas é o que basta nesta noite fria, tão fria...

Quarta-feira, Junho 17, 2009

Num domingo provável

Chego junto com as primeiras luzes do dia, olheiras nada discretas, com o frio de lá fora preso nas pontas dos dedos. Entreabro a porta, fazendo anteparo para não deixar muita luz entrar. Tiro a roupa devagar e me enfio debaixo do edredon num esforço quase hercúleo para não te acordar. Só que esqueço do seu sono leve, você desperta a termo de me perguntar: "Como foi seu dia?". "Longo", respondo. E sorrio. Daí você me abraça, encaixa minha cabeça no seu braço, tipo travesseiro. Tão pecado, logo domingo, estarmos acordados às sete da madrugada. E adormeço.

O sono é confuso, afinal, o sono da manhã nunca é tão repousante. Nos flashes que tenho, só reconheço coisas vagas ao longe: às vezes parece bossa nova, às vezes parece qualquer coisa brit-rock. Você não está na cama, presumo pelo vazio grande ao meu lado. Falta energia para sair, então deixo-me ir ficando na preguiça destes dias tão raros de folga. Até que, entre cochilos, sou acordado às lambidas pelo schnauzer mais lindo do mundo. Numa das vezes em que você veio velar meu sono, esquecera a porta aberta. Ainda demoro minutos, espreguiço-me longo pra começar o dia. Ao sair da cama, pego o cachorro de surpresa e murmuro baixinho: "Que seja doce, sete vezes". E levanto.

Atravesso o quarto meio zumbi, cabelo vergonhosamente desgrenhado, chego a sala e você não está. A música permanece, abafada pela porta trancada. Ainda tento girar a maçaneta e você me manda embora, pra não estragar a surpresa. Gosto de surpresas, sorrio. Refaço o caminho, tiro toda roupa numa hesitação monstruosa e entro no chuveiro. Água quente, para dilatar todos os poros. O banho é premeditadamente demorado, fico vigiando a porta na esperança de você entrar. Nada acontece, mas não me aborreço. Troco-me, coloco uma polo branca que gosto tanto, aparo a barba deixando-a estrategicamente desleixada, roubo seu perfume para sair cheirando pimentas pretas. Quando chego a sala, tudo parece cheirar o mar. Da cozinha, cantam sobre o Corcovado, o Redentor, que lindo. A porta está aberta.

Te abraço pela cintura, antes de você perceber minha chegada. Roço a barba devagar naquele canto esquecido perto da orelha: é minha forma silenciosa de te dizer boa tarde. Na panela, ainda borbulhando, são polvos. Reclamo que, pra mim, minha parte predileta nos polvos são aquelas ventosas grudentinhas que ficam na boca e a gente tem que ficar mastigando mastigando tipo chiclete sem gosto e você sorri e me empurra na parede dá dois beijos desliga o fogo quase deixa o prato cair e daí me abraça forte com a mão escapando até minha nuca e me afaga tão ternamente que suspiro porque eu gosto tanto do seu jeito de me adular e daí de repente penso que sou feito de milhares de moléculas e fico com medo de sei lá derreter pelo chão meio Céline meio Jesse tão tonto dessa vertigem que estamos sentindo...

E decidimos almoçar embolados um no outro, jogados no sofá. Só levanto para pegar o edredon azul, confirmando a frialdade do dia. Mas há a pimenta, há seu corpo quente que não deixa a temperatura cair. Não há muito o que fazer, a tarde quase faz a curva rumo a noite: decidimos nada fazer além, neste dia tão preguiçoso. Estouramos pipoca, lambuzo tudo de ketchup de baixa qualidade. Vemos um filme bom, outro divertido, zapeamos pela depressão domingueira da TV aberta. Numa propaganda de Sonho de Valsa, Amarante canta "ain't no lover like the one i've got". Lá fora, o leão já começa a rugir. E como ainda não me acostumo com essas selvagerias, dou um pulo de leve. Você vê, ri e me abraça. Perco o equilíbrio, caio do sofá e você cai junto, em solidariedade sincera.Percebo que você não tira os olhos de mim e a recíproca é verdadeira. Ficamos ali, no tapete, por um tempo indefinido: podiam ser minutos ou dias, talvez semanas, sei lá.

Penso em tantas coisas, tantos quereres. Em como quero te guiar pelos meus silêncios e pecados, todas as minhas idiossincrasias. Queria te mostrar meu mundo imperfeito, a tatuagem que planejo fazer, conhecer Praga e tomar um banho de mar contigo. A beleza em dividir essas cotidianidades banais, às vezes até fúteis, mas para devagar construirmos nossa compreensão silenciosa. A Lua agora sobe, iluminando pouca coisa além de nossas sombras. Dá vontade de ficar para sempre neste magnetismo tão bom...

Terça-feira, Junho 02, 2009

The Turning Point

Foi quando saí de casa, nestes dias de despedida destas ruas tão familiares que percebi: o ônibus não estava mais lá. Se foi vendido, se foi roubado, se foi levado para uma road-tripping pelo mundo, não sei. Só sorri, da coinciência da data: fazem seis meses, não?


Fiz as contas, para ter certeza do fato. Porque, afinal, já era tempo de tirar os panos de luto da janela, botar aquela velha caixa correnteza abaixo e seguir em frente, bambo e torto com a sombrinha na mão. Pela cidade vejo pessoas vendendo morangos, penso em Clarice. Volto nestes ônibus tão cheios, me apoiado na barra enquanto o veículo desliza pelo caos da cidade e lembro que tenho trabalhado tanto, pensando em Caio Fernando.


Sem perceber, as coisas acontecem. Faço o balanço dos dias e nunca foram tão plenos. O esforço frutifica, a vida parece que se encaixa numa loucura silenciosa. Quando penso que seria tudo só ladeira abaixo, só suor e sangue: há essa beleza tão working-class de se sentir pleno com o que se faz.


O coração nunca permanece vazio. Mesmo quando negligencio, desatento, sou pego de susto: há sempre uma história que acontece inesperadamente. Dessas cinematográficas, que valeriam um curta nestes últimos dias de outono tão iluminados. E mesmo que elas me deixem no mesmo lugar, há essa energia boa do acontecimento, da possibilidade. E de vivê-las, reencontrar-me novamente bonito e valorizado no espelho do outro. E de me ver assim, tão iluminado novamente, aprumar a coluna, quem sabe até comprar aquele perfume de pimentas pretas? Quem sabe, até fazer aquela tatuagem...


Sampa segue gélida, nestes últimos dias de outono. Os dias carregados de tanta luz que até doem. As felicidades são telegráficas e há promessa de coisas melhores por vir. Veja lá, voltei a ser a Pollyana surtada? Não sei. Só sei que é preciso força pra sonhar e perceber que a estrada vai além do que se vê...

Quinta-feira, Maio 28, 2009

Réquiem, o final

Quinta-feira, tarde - Subo a minha ladeira habitual, caminho de sempre para casa. O dia é nublado, daqueles de gelar a ponta do nariz. Meus prediletos. Vou escutando Tiê, aliás, havia escutado Tiê o dia inteiro e cantando meio que em prece íntima: "Fica feliz que vai funcionar". Dizem que funciona, dizem que parece comigo. Suspiro, nestes dias confusos: que seja doce. E o telefone toca, atendo direto no fone. Surpreendo-me com a voz doutro lado da linha. Você diz: "Gabri (gosto disso, só você no mundo que me chama de Gabri), eu voltei. Disse que voltaria. É a última vez que estou aqui em Sampa no ano, gostaria de te ver". Digo irresponsabilidades reflexas: "Lógico, sim, vamos. Tenho aniversário, amanhã de plantão em Santo André. Mas damos um jeito, beijo". E ali, na solidão de uma grande avenida paulistana, coberto pela neblina tóxica de monóxido de carbono tão típica nestes dias de inversão térmica, mando uma mensagem desesperada para minha amiga-bossa-nova: "E agora? E o coração, onde é que fica?".

Porque, eu já sabia, que aquele seria o início do fim...

Sexta, almoço - Marco com um novo amigo aqueles almoços executivos: comer não importa, o que importa é o que se discute. E daí resolvi trazer minhas migalhas de amor. Contei-lhe toda história: minha primeira noite em Sampa, da minha semelhança com Rob Thomas, a viagem para além do Trópico de Capricórnio para, sei lá, procurar o algo que faltava. Dei a ênfase nas reticências, nessa relação estranha que se criou entre nós, mesmo que pautada em nossos breves encontros e histórias similares. Meu amigo, de repente, deu uma risada boa e disse: poxa, parece Antes do Amanhecer. Sou eu quem sorrio, em seguida. Ele tinha entendido o ponto. E me perguntou em seguida: "Mas porque você não bota as cartas na mesa? Porque você não diz que essa história de seu-amigo-o-caralho, te quero mesmo na minha cama entre edredons?".

"O difícil é ter cultivado uma história tão legal, tão bonita e ver tudo esfarelar sob a luz da realidade. Ainda não sei se quero abrir mão dessa minha historinha de amor romantizada. Lá no fundo, tenho a ilusão de que, sei lá, daqui seis meses quem sabe. Porque esse é o último amor platônico que tenho. Não é fácil abrir mão de uma ilusão que gosto de lembrar vez por mês, acariciá-la com zelo e colocá-la na prateleira das minhas coisas belas pra cair na solidão desse mundo imenso, vasto e irritantemente palpável. Gosto de viver essa minha realidade inventada. Não queria perder algo descobrindo que eu nunca tive, entende? É difícil..."

(continua..)

Domingo, Maio 24, 2009

Sobre mortes (sem culpa, vejam só), parte 2

"E no entanto é preciso cantar
Mais que nunca é preciso cantar
É preciso cantar e alegrar a cidade..."
(meu bom e velho Vininha)

Aquela era uma época sem culpa, sem pecados. Me lembro: vago 2006, quando tudo era longe e difícil. Os amores eram vagas possibilidades, dispersos em centenas de quilômetros de distância. Poucas certezas, várias dúvidas: só um caminho aparecendo, várias risadas, diversões com poucas coisas.

Lembro-me dele. Meia dúzia de contatos, três vezes uma casa cedida naqueles dias de pouco dinheiro e muita esperança. Rafael era um rapaz doce, meigo, da minha altura. Compartilhava com ele essa sensação do corpo maior que o mundo, aprendendo a lidar com braços tão grandes e peito tão aberto. Conheci seu irmão, conheci tantas fotos na parede de pessoas felizes. Morava na cidade vizinha de meus avós e todas as vezes, naqueles natais longos e sem perspectivas além, marcávamos um encontro na praça, pra tomar sorvete e etc, que nunca acabou acontecendo.

Fazia Odonto, mas queria Medicina. Lembro-me uma vez, conversando com ele numa noite regada a cerveja Ale, dividindo todas as intempéries do meio do curso. Contava coisas banais daquela época: livros absurdos, capítulos imensos, expectativas que não concretizavam. Da aridez de tanto tempo de dedicação sem nada em vista. Ele só me olhava, olhos sedentos. Dizia que os pais não o permitiam seguir outro rumo. E eu, de consolo até sincero, retrucava: também não sei se esse caminho era o que eu queria, o mais ensolarado.

Daí, o tempo. Dessas coisas concretas que vocês me vêem contando. Amores sem rumo, expectativas sem caminho. Assistir a tanta coisa que nunca imaginei ver. Ribeirão Preto virou terra distante, perdida num mar de lembranças ternas que guardo para mim. Seguimos o caminho.

Fael Loureiro se matou enforcado há um mês atrás, na terceira tentativa. Só na última teve sucesso. Foi encontrado quatro dias depois, quando a natureza, impacável, já seguia seu curso. Fiquei sabendo num telefonema de um grande amigo, estupefato pela gratuidade do fato. E ali, naquela noite fria, permaneci mastigando as lembranças, coisa que me é bem característica.

Não vou abusar dos clichês: não basta só acender uma vela e, catolicamente, rezar por qualquer tipo de redenção. Pouco o conhecia além daquelas noites que me pareciam vastas e tempestuosas. Porque, de fato, a notícia mexeu comigo. Compartilhava com ele alguns momentos iluminados e, com sua partida, pareceu que parte da minha história tinha ido embora. Mesmo que fosse pra encontrar, nesses esbarros providenciais da vida e dizer: sabe, naquele tempo, e se tivesse? Parece que aquele carinho todo fica sem ter pra onde escoar.

Penso agora nessa nossa solidão urbana, árida e difícil. Em todas essas noites que queimamos em trabalho árduo sem saber pra onde vai dar, ou jogando os dados na expectativa de compartilhar com alguém um pouco deste caos em que estamos imersos. Não que seja um caminho válido, mas: e se fosse eu? Se não bastasse o fim, nessa demora desumana em terem se apercebido da falta de alguém, da falta do toque um pouco mais demorado no ombro, na paciência silenciosa em verter nossas dores pequenos-burguesas que temos tanta vergonha de contar.

Hoje tomei um porre, voltei de metrô. No caminho longo que separa minha casa da estação, fumei três cigarros numa tristeza difícil. Vim contado os passos, iluminado pela brasa débil que acendia das minhas golfadas longas. Pensei em Fael quase todo tempo. No imerecimento da ocasião. Nas escolhas difíceis que tomamos, por vezes afastando do ponto que nos é confortável. E concluir, dentro de todo aprendizado o que Vinícius me disse: realmente não há muito o que dizer. Por isso temos braços longos para os adeuses...

E é preciso suportar. Mais que nunca, é preciso cantar. Aceitar o fato da vida injusta, das dificuldades que nos são impostas. De que, de uma forma irracional, há algo bom que nos espera na esquina da frente. Talvez a Mega Sena, talvez o amor brand-new soprando mansinho nos ouvidos, talvez aquela epifania que faça o click e bote tudo com um sentido.

E, iluminado por essa noite fria, penso em Bandeira. Meu Bandeira bom, que passou a vida esperando a tísica lhe carregar para a morte. De peito aberto, de alma lavada. Porque são tantas coisas azuis, há tão grandes promessas de luz... E adormeço.

"Assim eu quereria meu último poema
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação"

PS - as referências: Poema de Natal e Marcha da Quarta-Feira de Cinzas, de Vinícius de Morais e Último Poema de Manuel Bandeira. E haja axé para todos nós.